maio/26 | em Sem categoria
Internacionalização da Pós-Graduação: como o PVCD Fulbright-CAPES está transformando programas brasileiros
A internacionalização é hoje um dos critérios mais relevantes na avaliação de universidades e de programas de pós-graduação pela CAPES. Mas para muitas universidades, especialmente as localizadas fora dos grandes centros urbanos, isso pode parecer um obstáculo intransponível face à dificuldade em obter os recursos, com a flexibilidade necessária, para promover a mobilidade internacional de pesquisadores.
O Programa de Professor Visitante de Curta Duração (PVCD) da Fulbright-CAPES oferece uma solução prática ao alcance dos programas de pós-graduação: trazer, com financiamento integral, especialistas norte-americanos de alto nível para universidades brasileiras, e financiar missão de trabalho nos EUA dos brasileiros coordenadores dos projetos. É uma iniciativa que promove a cooperação acadêmica bilateral e que está transformando a realidade de programas de pós-graduação em diferentes regiões do país.
O PCVD Fulbright é alinhado às metas do CAPES Global e promove cooperação acadêmica bilateral entre Estados Unidos e Brasil concentrada em um objetivo claro: fortalecer a pesquisa e o ensino em instituições brasileiras através da colaboração com pesquisadores especializados norte-americanos, os Fulbright Specialists.

O PCVD Fulbright na prática
Na prática, funciona assim: sua universidade submete, por intermédio de seus programas e pós-graduação, um projeto de trabalho em uma área acadêmica elegível, e a Fulbright identifica um especialista dos EUA qualificado para vir ao Brasil e desenvolver esse projeto junto ao seu programa. A duração é flexível — pode ser de 14, 21 ou 28 dias — o que torna a oportunidade viável para programas com recursos limitados e especialistas com agendas apertadas.
Mas o que realmente diferencia o PVCD de outros programas de cooperação? A Fulbright Brasil assume praticamente todos os custos; isso sem a burocracia de administrar verba para trazer o professor visitante. O especialista norte-americano recebe honorários, diárias e passagem aérea diretamente da Fulbright. A universidade que recebe o Fulbright Specialist investe tempo em coordenação e oferece a infraestrutura, sem que precise desembolsar recursos significativos para trazer o pesquisador.
Qual é o custo para trazer um especialista norte-americano pelo PVCD?
O PCVD possibilita às IES brasileiras acesso à internacionalização sem custos. A Fulbright fornece ao especialista norte-americano US$ 200 de honorários diários, pagos ao término do projeto como compensação pelo afastamento de suas atividades profissionais; US$ 200 diários para hospedagem e alimentação; passagem aérea internacional; e cobertura para acidentes e doenças. O programa de pós-graduação brasileiro com projeto selecionado recebe um auxílio de R$ 3 mil para cobrir despesas incidentais diretamente ligadas às atividades do especialista, como material didático, serviços de tradução, impressão de material de divulgação.
Mas há mais. O coordenador que lidera o projeto também pode solicitar uma missão de trabalho nos EUA, com auxílio de até US$ 4.600 (incluindo seguro-saúde) e passagem aérea Brasil/EUA/Brasil para uma visita mínima de 12 dias em instituição de ensino superior norte-americana. Isso significa que quem coordena não apenas recebe um especialista, mas também vai aos EUA para consolidar parcerias, conhecer pesquisadores e estruturar a continuidade da colaboração. É o que torna o PVCD verdadeiramente bilateral — ambos os lados ganham mobilidade e experiência internacional.
Em contrapartida, o que sua universidade oferece? Infraestrutura, salas de aula, espaço para seminários, acesso a laboratórios, se necessário, coordenação de horários. O Professor William Teixeira, Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (PPGEL) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, resume bem essa equação: “A equipe da Fulbright Brasil deu todo o suporte antes da implementação. Como trabalhei de perto com o Fulbright Specialist, conseguimos fazer uma organização sem sobrecarga”, explica. A Fulbright Brasil cuida da burocracia internacional do programa para que os selecionados possam se dedicar ao que importa: construir parcerias.

Como receber um Fulbright Specialist?
Antes de investir tempo em uma proposta, vale confirmar os requisitos mínimos para que seu programa possa receber um Fulbright Specialist norte-americano.
- Seu programa de pós-graduação precisa ter doutorado (mestrado sozinho não qualifica).
- Sua nota na última avaliação CAPES precisa ser 4 ou superior.
- Sua Coordenação do Programa de Pós-Graduação deve fornecer um ofício apresentando o programa de pós-graduação e identificando o responsável pelo projeto
- Sua Pró-Reitoria de Pós-Graduação precisa aprovar o projeto e fornecer um ofício de apoio institucional.
- Seu projeto precisa ser em uma das áreas atendidas pelo PVCD
Programas de universidades de todo o Brasil podem enviar projetos desde que tenham esses indicadores mínimos. O PVCD incentiva especialmente candidaturas de instituições fora das capitais e, em especial, das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, priorizando a redução das desigualdades na internacionalização acadêmica.
Internacionalização como Metodologia: O Caso da UFMS
Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, o programa de pós-graduação em Estudos de Linguagens enfrentava um desafio comum: como atualizar metodologias de ensino e tornar o currículo mais sensível aos problemas atuais, sem parecer desconectado da realidade dos alunos?
Professor William Teixeira, coordenador do projeto, viu no PVCD uma oportunidade de trazer uma perspectiva externa especializada. A proposta era simples em aparência, mas ambiciosa na execução: receber Randall Allsup, da Columbia University, para colaborar na revisão de metodologias e na formação de professores mais preparados para lidar com as demandas tecnológicas e sociais contemporâneas.

O resultado? “Tanto de acordo com a nossa experiência como de acordo com o Prof. Randall Allsup, esses cursos foram pontos altos de nossas vidas e carreiras”, diz Teixeira. O programa estruturou dois cursos — um de graduação e outro de pós-graduação — que culminaram em um concerto final como aplicação prática dos conceitos estudados.
Em números: cerca de 40 alunos participaram dos cursos principais, mais 100 pessoas em uma oficina aberta à comunidade, e cerca de 10 professores da UFMS envolvidos em reuniões de discussão com o especialista. Mas o impacto não parou aí. Professor Teixeira relatou que voltou recentemente de uma visita à Columbia University, onde apresentou um recital-palestra baseado exatamente nesse projeto desenvolvido no Brasil. Duas comunicações de pesquisa já foram apresentadas em eventos internacionais de educação musical.
“Essa é uma oportunidade única para alavancar novas parcerias e proporcionar uma experiência de nível internacional aos alunos”, é o resumo final do Professor Teixeira. O que começou como um programa de 28 dias virou uma parceria duradoura e visibilidade internacional consolidada.
Quando o Especialista Fala Sua Língua: A Experiência da UTFPR
Um detalhe que faz diferença enorme é quando o especialista visitante domina o português. Na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, em Londrina, essa vantagem foi central para o sucesso.

Professor Henrique Rizek Elias coordenou a proposta do programa de pós-graduação em Ensino de Matemática. O desafio? Trazer uma perspectiva internacional reconhecida sobre o ensino de frações — um tema crítico para a formação de professores de matemática. O especialista selecionado, Arthur Powell da Rutgers University, não apenas é uma referência internacional em didática de frações, como fala e entende português.
“O idioma não foi uma barreira. O fato de Powell dominar a língua portuguesa tornou tudo mais fácil e proveitoso, uma vez que ele conseguiu se comunicar com docentes e discentes do Programa e com docentes da Educação Básica”, explica Elias.
As atividades foram estruturadas em camadas. O especialista ministrou cursos de extensão para professores da educação básica em duas cidades — Londrina e Cornélio Procópio —, com 23 a 25 participantes em cada. Participou de duas aulas inteiras da disciplina de mestrado, nas quais trabalhou perspectivas de medição aplicadas ao ensino de frações. Fez palestras em eventos do programa. E estabeleceu um diálogo contínuo com o grupo de pesquisa de Elias.

O resultado direto foi de cerca de 200 pessoas impactadas. Mas o resultado indireto é talvez mais importante: Arthur Powell continua participando remotamente do grupo de pesquisa na UTFPR, a cada duas semanas, colaborando com seus orientandos de mestrado. Além disso, já publicaram um trabalho científico juntos (apresentado em evento no Chile) e estão escrevendo um capítulo de livro.
“Considero que vale a pena se dedicar a escrever um projeto viável e, ao mesmo tempo, com potencial de impacto local. Os resultados são satisfatórios e a experiência é válida,” diz o professor da UTFPR. Sua recomendação? Ser realista no escopo do projeto do PVCD: atividades possíveis de serem executadas, sem exagerar nas pretensões e sempre prever tempo tanto para reuniões de planejamento com o especialista quanto para que ele conheça e aproveite a cidade.
Inovação em Região de Foco: O Diferencial da UNILAB
A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, em Redenção no Ceará, é uma instituição única — vocacionada para cooperação Sul-Sul global. Quando a professora Maria Cristiane Martins de Souza coordenou a proposta do PVCD Fulbright, seu objetivo era duplo: aplicar a internacionalização valorizada pela CAPES e consolidar trocas de experiência em pesquisa que tivessem permanência.
O Fulbright Specialist recebido foi Clifford Louime, da University of Puerto Rico, especialista em ciências ambientais. O workshop desenvolvido criou aproximação entre pesquisadores e estudantes e estruturou parcerias para futuros projetos.
“O acolhimento cearense é o nosso maior diferencial. Realmente, foi consolidada uma parceria. Estamos realizando projetos de intercâmbio estudantil”, relata a professora da UNILAB. O impacto foi quantificável: 30 alunos do grupo de pesquisa GENES tiveram impacto direto; aproximadamente 400 estudantes da instituição tiveram impacto indireto. Cinco alunos foram selecionados como interessados em realizar pesquisa na área do professor visitante.

Um ponto importante que Souza menciona: a UNILAB fez traduções simultâneas com alunos e professores para os demais participantes, “como somos uma universidade internacional, muitos alunos de países africanos têm o inglês até como primeira língua.” Isso mostra que, mesmo quando há barreiras linguísticas, soluções criativas com a própria comunidade universitária funcionam bem.
A maior lição da participação no PVCD Fulbright foi também honesta: “Faríamos mais tempo de permanência do pesquisador.” E há um desafio real que ela nomeia: “Ainda esbarramos na falta de recursos da UNILAB para expandir tudo o que foi iniciado.” Mesmo assim, sua mensagem é clara: “Precisamos receber mais professores externos, assim, criamos um ambiente inovador nas universidades, assim nos tornamos mais conhecidos”.
PVCD Fulbright: impactos de internacionalização da pós-graduação no Brasil
Todos os projetos selecionados para o PVCD Fulbright resultaram em algo em comum: colaborações acadêmicas duradouras com especialistas de universidades de alto ranking internacional.
Isso não é casual. Alinhado às metas do CAPES Global, o PVCD promove colaborações estruturadas com especialistas dos EUA, ampliando parcerias acadêmicas e contribuindo diretamente para indicadores valorizados na avaliação CAPES. Especificamente, o PVCD pode ajudar seus indicadores em:
Inserção Internacional: quando você faz publicações conjuntas com pesquisadores estrangeiros, participa de redes de pesquisa internacional ou estabelece colaborações contínuas (como no caso da UTFPR), isso fica registrado nas coletas de dados que a CAPES utiliza para avaliar programas.
Formação de Recursos Humanos com Qualidade: alunos que trabalham com especialistas internacionais têm acesso a metodologias de pesquisa de ponta, o que se reflete em sua formação e, consequentemente, na qualidade do programa.
Visibilidade e Circulação de Pesquisa: apresentações em eventos internacionais, publicações em journals e capítulos de livros tornam seu programa visível no circuito internacional de pesquisa.
Nenhum desses resultados veio de mágica. Veio de um projeto bem estruturado, com coordenação séria e especialista competente. Mas foi financiado, coordenado e facilitado pelo PVCD.
Perguntas Práticas sobre o PVCD
Preciso já saber quem é o especialista que vou trazer pro PVCD?
Em via de regra, não. Especialistas norte-americanos de todas as áreas candidatam-se para entrar na lista de Fulbright Specialist. A Fulbright realiza uma busca e seleção de especialistas após sua proposta ser aprovada. Você descreve o projeto, os objetivos, a área e a Fulbright identifica quem é apto. Isso reduz drasticamente o trabalho de busca independente.
Posso indicar um especialista para receber no PVCD?
Sim, formulário de candidatura, você pode indicar um especialista com quem já trabalhe. No entanto, importante esclarecer que apenas cidadãos norte-americanos são elegíveis como Fulbright Specialist.
Todos os Fulbright Specialist falam português?
Não. O edital do PVCD deixa claro que exigir português fluente do Fulbright Specialist “poderá dificultar a busca por candidatos.” Muitos falam apenas inglês. Mas essa é uma situação que pode ser contornada: sua equipe faz a tradução; você participa das aulas e pode usar alunos bilíngues para interpretar.
Preciso saber inglês fluente pra poder coordenar um projeto?
A proposta precisa ser enviada em inglês e idealmente a pessoa que vai lidar com o especialista precisa falar e entender o suficiente para se comunicar com o Fulbright Specialist durante o programa.
Qual é o benefício para quem coordena o programa no Brasil?
Você não trabalha apenas como anfitrião do especialista. Se seu projeto for selecionado, você ganha uma Missão de Trabalho nos EUA: passagem aérea, até US$ 4.600 em auxílio (incluindo seguro-saúde) e no mínimo 12 dias para trabalhar em uma universidade americana focado nos objetivos do projeto. Você passa a conhecer pesquisadores parceiros, consolida redes de pesquisa e volta com contatos e parcerias prontos para serem explorados. É a oportunidade de internacionalizar sua própria carreira enquanto internacionaliza o programa de pós-graduação da sua universidade.
Qualquer projeto acadêmico é elegível ao programa de Professor Visitante de Curta duração?
Não. Os projetos enviados precisam ser nas áreas elegíveis ao PVCD e, além disso, projetos de pesquisa, projetos médicos clínicos e projetos relacionados a ensino de inglês não são elegíveis para financiamento.
Como Começar: O Próximo Passo
Se seu programa atende aos requisitos básicos (doutorado, nota CAPES ≥ 4, apoio institucional), o próximo passo é simples:
- Discuta com a coordenação do seu programa de pós-graduação sobre seu interesse em apresentar um projeto. Você vai precisar de um ofício que apresente o curso e identifique o responsável pelo projeto.
- Converse com sua reitoria e pró-reitoria para confirmar interesse institucional. Você vai precisar de um ofício de apoio deles.
- Defina um projeto claro. Não precisa ser uma pesquisa em si — pode ser uma revisão de currículo, desenvolvimento de metodologias, workshops em áreas específicas, consultoria em problemas que seu programa enfrenta. O importante é que seja factível em 14-28 dias e tenha impacto comprovável.
- Estruture a proposta em inglês usando o formulário da Fulbright Brasil. Descreva objetivos, atividades, resultados esperados, como isso impactará alunos e professores, e como isso pode levar a parcerias futuras.
- Submeta até a data-limite
Se aprovado, você entra em contato com especialistas pré-selecionados, classifica-os por preferência, e a Fulbright Brasil faz o resto.
Internacionalização acadêmica ao alcance de todos
A internacionalização de um programa de pós-graduação não é privilégio de universidades em grandes centros urbanos com grandes orçamentos. É uma realidade ao alcance de todos os programas de pós-graduação no Brasil.
Os três coordenadores que compartilharam suas experiências com o PVCD, Professor William Teixeira, Professor Henrique Rizek Elias e Professora Maria Cristiane Martins de Souza, não começaram com vantagens estruturais. Eles tinham dedicação, clareza de objetivo e acesso a um programa que funcionou.
O PVCD Fulbright funciona porque alinha os interesses de todos: a Fulbright consegue seus especialistas para fazer trabalho de alto impacto, sua universidade ganha internacionalização real sem custo paralelo, você, como coordenador, ganha uma Missão de Trabalho nos EUA para consolidar parcerias, alunos saem mais preparados, com acesso a metodologias internacionais e especialistas norte-americanos ganham experiência em contextos acadêmicos diferentes. É bilateralidade de verdade.
Se você é coordenador de um programa que se vê fora do circuito internacional, vale olhar para isso não como um sonho distante, mas como um projeto viável que está aberto a candidaturas agora.
