maio/26 | em Notícias

Internacionalização da Pós-Graduação: como o PVCD Fulbright-CAPES está transformando programas brasileiros

A internacionalização é hoje um dos critérios mais relevantes na avaliação de programas de pós-graduação pela CAPES. Para universidades fora dos grandes centros urbanos, isso costuma parecer impossível: faltam recursos flexíveis para promover a mobilidade internacional de pesquisadores.

O Programa de Professor Visitante de Curta Duração (PVCD) da Fulbright-CAPES resolve isso na prática. Ele financia a vinda de especialistas dos EUA para universidades brasileiras e também financia a missão de trabalho nos EUA do coordenador brasileiro do projeto. É cooperação acadêmica nos dois sentidos, com dinheiro de verdade por trás.

O PVCD está alinhado às metas do CAPES Global: fortalecer a pesquisa e o ensino em instituições brasileiras através da colaboração com Fulbright Specialists, pesquisadores americanos especializados.

O Fulbright Specialist, Arthur Powell, em evento na UTFPR

O PCVD Fulbright na prática

Funciona assim: seu programa de pós-graduação submete um projeto em uma área elegível, e a Fulbright encontra um especialista dos EUA qualificado para vir ao Brasil trabalhar nesse projeto com você.

A duração da visita do Fulbright Specialist é flexível: pode ser de 14, 21 ou 28 dias. Isso torna a oportunidade viável tanto para programas com recursos limitados quanto para especialistas com agenda apertada.

O que diferencia o PVCD de outros programas de cooperação? A Fulbright Brasil assume quase todos os custos, sem que sua universidade precise administrar verba para trazer o professor visitante. O especialista norte-americano recebe honorários, diárias e passagem aérea diretamente da Fulbright. A universidade investe tempo em coordenação e oferece a infraestrutura, sem desembolsar recursos significativos.

Qual é o custo para trazer um especialista norte-americano pelo PVCD?

O PVCD dá às universidades brasileiras acesso à internacionalização sem custo financeiro direto. A Fulbright fornece ao especialista norte-americano US$ 200 de honorários diários, pagos ao término do projeto como compensação pelo afastamento de suas atividades profissionais; US$ 200 diários para hospedagem e alimentação; passagem aérea internacional; e cobertura para acidentes e doenças. O programa de pós-graduação brasileiro com projeto selecionado recebe um auxílio de R$ 3 mil para cobrir despesas incidentais ligadas às atividades do especialista, como material didático, serviços de tradução e impressão de material de divulgação.

Mas há mais. O coordenador que lidera o projeto na Universidade Brasileira também pode solicitar uma missão de trabalho nos EUA, com auxílio de até US$ 4.600 (incluindo seguro-saúde) e passagem aérea Brasil/EUA/Brasil, para uma visita mínima de 12 dias em instituição de ensino superior norte-americana. Isso significa que quem coordena não só recebe um especialista: também vai aos EUA para consolidar parcerias, conhecer pesquisadores e dar continuidade à colaboração. Os dois lados ganham mobilidade e experiência internacional.

Em contrapartida, o que sua universidade oferece? Infraestrutura, salas de aula, espaço para seminários, acesso a laboratórios, se necessário, coordenação de horários. O Professor William Teixeira, Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (PPGEL) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, resume bem essa equação: “A equipe da Fulbright Brasil deu todo o suporte antes da implementação. Como trabalhei de perto com o Fulbright Specialist, conseguimos fazer uma organização sem sobrecarga”, explica. A Fulbright Brasil cuida da burocracia internacional do programa para que os selecionados possam se dedicar ao que importa: construir parcerias.

 Jennifer Lee Wilkening (dir), Fulbright Specialist, da University of Colorado na UERN em Mossoró

Como receber um Fulbright Specialist?

Antes de investir tempo em uma proposta, vale confirmar os requisitos mínimos para que seu programa possa receber um Fulbright Specialist norte-americano. 

  • Seu programa de pós-graduação precisa ter doutorado (mestrado sozinho não qualifica). 
  • Sua nota na última avaliação CAPES precisa ser 4 ou superior. 
  • Sua Coordenação do Programa de Pós-Graduação deve fornecer um ofício apresentando o programa de pós-graduação e identificando o responsável pelo projeto 
  • Sua Pró-Reitoria de Pós-Graduação precisa aprovar o projeto e fornecer um ofício de apoio institucional.
  • Seu projeto precisa ser em uma das áreas atendidas pelo PVCD

Programas de universidades de todo o Brasil podem enviar projetos desde que tenham esses indicadores mínimos. O PVCD dá prioridade a candidaturas de instituições fora das capitais, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Internacionalização como Metodologia: O Caso da UFMS

Na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, o programa de pós-graduação em Estudos de Linguagens enfrentava um desafio comum: como atualizar metodologias de ensino e tornar o currículo mais sensível aos problemas atuais, sem parecer desconectado da realidade dos alunos?

Professor William Teixeira, coordenador do projeto, viu no PVCD uma oportunidade de trazer uma perspectiva externa especializada. A proposta era simples em aparência, mas ambiciosa na execução: receber Randall Allsup, da Columbia University, para revisar metodologias e preparar professores para os desafios atuais de tecnologia e sociedade.

Prof. Randall Allsup (esq.), Prof. William Teixeira (centro) e a reitora da UFMS, Camila Ítavo

O resultado? “Tanto de acordo com a nossa experiência como de acordo com o Prof. Randall Allsup, esses cursos foram pontos altos de nossas vidas e carreiras”, diz Teixeira. O programa estruturou dois cursos, um de graduação e outro de pós-graduação, que culminaram em um concerto final como aplicação prática dos conceitos estudados.

Segundo o coordenador, cerca de 40 alunos participaram dos cursos principais, mais 100 pessoas em uma oficina aberta à comunidade, e cerca de 10 professores da UFMS se envolveram em reuniões de discussão com o especialista.

Depois disso, Teixeira viajou aos Estados Unidos para apresentar um recital-palestra na Columbia University baseado no projeto desenvolvido no Brasil. Duas comunicações de pesquisa sobre o projeto já foram apresentadas em eventos internacionais de educação musical.

“Essa é uma oportunidade única para alavancar novas parcerias e proporcionar uma experiência de nível internacional aos alunos”, é o resumo final do Professor Teixeira. O que começou como um programa de 28 dias se tornou uma parceria duradoura, com publicações conjuntas e reconhecimento internacional.

Quando o Especialista Fala Sua Língua: A Experiência da UTFPR

Um detalhe que faz diferença enorme é quando o especialista visitante domina o português. Na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, em Londrina, essa vantagem foi central para o sucesso.

 Palestra do Fulbright Specialist Arthur Powell da Rutgers University na UTFPR

Professor Henrique Rizek Elias coordenou a proposta do programa de pós-graduação em Ensino de Matemática. O desafio? Trazer uma perspectiva internacional reconhecida sobre o ensino de frações, um tema central na formação de professores de matemática. O especialista selecionado, Arthur Powell da Rutgers University, não apenas é uma referência internacional em didática de frações, como fala e entende português.

“O idioma não foi uma barreira. O fato de Powell dominar a língua portuguesa tornou tudo mais fácil e proveitoso, uma vez que ele conseguiu se comunicar com docentes e discentes do Programa e com docentes da Educação Básica”, explica Elias.

As atividades foram estruturadas em camadas. O especialista ministrou cursos de extensão para professores da educação básica em duas cidades, Londrina e Cornélio Procópio, com 23 a 25 participantes em cada. Participou de duas aulas inteiras da disciplina de mestrado, nas quais trabalhou perspectivas de medição aplicadas ao ensino de frações. Fez palestras em eventos do programa. E manteve um diálogo contínuo com o grupo de pesquisa de Elias.

Powell (dir.) no curso de extensão com professores da rede básica de ensino do Paraná

Segundo o coordenador, o resultado direto chegou a cerca de 200 pessoas. O resultado indireto pesa mais: Arthur Powell continua participando remotamente do grupo de pesquisa na UTFPR, a cada duas semanas, colaborando com os orientandos de mestrado de Elias. Além disso, já publicaram um trabalho científico juntos (apresentado em evento no Chile) e estão escrevendo um capítulo de livro.

“Considero que vale a pena se dedicar a escrever um projeto viável e, ao mesmo tempo, com potencial de impacto local. Os resultados são satisfatórios e a experiência é válida,” diz o professor da UTFPR. Sua recomendação: ser realista no escopo do projeto, sem exagerar nas pretensões, e reservar tempo tanto para o planejamento com o especialista quanto para ele conhecer a cidade.

Inovação em Região de Foco: O Diferencial da UNILAB

A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, em Redenção no Ceará, é uma universidade vocacionada para cooperação Sul-Sul global. Quando a professora Maria Cristiane Martins de Souza coordenou a proposta do PVCD Fulbright, seu objetivo era duplo: aplicar a internacionalização valorizada pela CAPES e criar trocas de pesquisa que durassem além do projeto.

O Fulbright Specialist recebido foi Clifford Louime, da University of Puerto Rico, especialista em ciências ambientais. O workshop desenvolvido aproximou pesquisadores e estudantes e estruturou parcerias para futuros projetos.

“O acolhimento cearense é o nosso maior diferencial. Realmente, foi consolidada uma parceria. Estamos realizando projetos de intercâmbio estudantil”, relata a professora da UNILAB. Segundo ela, o impacto direto chegou a 30 alunos do grupo de pesquisa GENES, com efeito indireto sobre cerca de 400 estudantes da instituição. Cinco alunos foram selecionados como interessados em realizar pesquisa na área do professor visitante.

O reitor da UNILAB (dir.) e Clifford Louime (de gravata) em evento com alunos.

Um ponto importante que Souza menciona: a UNILAB fez traduções simultâneas com alunos e professores para os demais participantes, “como somos uma universidade internacional, muitos alunos de países africanos têm o inglês até como primeira língua.” Isso mostra que barreiras de idioma têm solução dentro da própria comunidade universitária.

A maior lição da participação no PVCD Fulbright foi também honesta: “Faríamos mais tempo de permanência do pesquisador.” E há um desafio que ela nomeia sem rodeios: “Ainda esbarramos na falta de recursos da UNILAB para expandir tudo o que foi iniciado.” Mesmo assim, sua mensagem é clara: “Precisamos receber mais professores externos, assim, criamos um ambiente inovador nas universidades, assim nos tornamos mais conhecidos”.

PVCD Fulbright: impactos de internacionalização da pós-graduação no Brasil

Os projetos do PVCD que acompanhamos resultaram em algo em comum: colaborações acadêmicas duradouras com especialistas de universidades internacionalmente reconhecidas.

Isso não é coincidência. O PVCD está alinhado às metas do CAPES Global e contribui diretamente para indicadores que a CAPES valoriza na avaliação dos programas. Especificamente, o PVCD pode ajudar nestes pontos:

  • Inserção Internacional: quando você publica em conjunto com pesquisadores estrangeiros, participa de redes de pesquisa internacional ou estabelece colaborações contínuas (como no caso da UTFPR), isso fica registrado nas coletas de dados que a CAPES usa para avaliar programas.
  • Formação de Recursos Humanos com Qualidade: alunos que trabalham com especialistas internacionais têm acesso a metodologias de pesquisa usadas internacionalmente, o que se reflete na qualidade do programa.
  • Visibilidade e Circulação de Pesquisa: apresentações em eventos internacionais, publicações em journals e capítulos de livros tornam seu programa visível no circuito internacional de pesquisa.

Nenhum desses resultados veio de mágica. Veio de um projeto bem estruturado, com coordenação séria e especialista competente. Mas foi financiado, coordenado e facilitado pelo PVCD.

Perguntas Práticas sobre o PVCD

Preciso já saber quem é o especialista que vou trazer pro PVCD?

Em via de regra, não. Especialistas norte-americanos de todas as áreas se candidatam para entrar na lista de Fulbright Specialist. A Fulbright faz a busca e seleção de especialistas depois que sua proposta é aprovada. Você descreve o projeto, os objetivos, a área, e a Fulbright identifica quem é apto. Isso poupa bastante trabalho de busca independente.

Posso indicar um especialista para receber no PVCD? 

Sim, no formulário de candidatura você pode indicar um especialista com quem já trabalhe. Mas atenção: só cidadãos norte-americanos podem ser Fulbright Specialist.

Todos os Fulbright Specialist falam português? 

Não. O edital do PVCD deixa claro que exigir português fluente do Fulbright Specialist “poderá dificultar a busca por candidatos”. Muitos falam apenas inglês. Mas dá para contornar: sua equipe faz a tradução, você participa das aulas e pode usar alunos bilíngues para interpretar.

Preciso saber inglês fluente pra poder coordenar um projeto? 

A proposta precisa ser enviada em inglês. E quem vai lidar com o especialista precisa falar e entender o suficiente para se comunicar com ele durante o programa.

Qual é o benefício para quem coordena o programa no Brasil?

Você não trabalha apenas como anfitrião do especialista. Se seu projeto for selecionado, você ganha uma Missão de Trabalho nos EUA: passagem aérea, até US$ 4.600 em auxílio (incluindo seguro-saúde) e no mínimo 12 dias para trabalhar em uma universidade americana, focado nos objetivos do projeto. Você conhece pesquisadores parceiros, consolida redes de pesquisa e volta com contatos e parcerias prontos para serem explorados. É a chance de internacionalizar sua própria carreira enquanto internacionaliza o programa de pós-graduação da sua universidade.

Qualquer projeto acadêmico é elegível ao programa de Professor Visitante de Curta duração?

Não. Os projetos enviados precisam estar nas áreas elegíveis ao PVCD. Além disso, projetos de pesquisa, projetos médicos clínicos e projetos relacionados a ensino de inglês não são elegíveis para financiamento.

Como Começar: O Próximo Passo

Se seu programa atende aos requisitos básicos (doutorado, nota CAPES ≥ 4, apoio institucional), o próximo passo é simples:

  1. Discuta com a coordenação do seu programa de pós-graduação sobre seu interesse em apresentar um projeto. Você vai precisar de um ofício que apresente o curso e identifique o responsável pelo projeto.
  1. Converse com sua reitoria e pró-reitoria para confirmar interesse institucional. Você vai precisar de um ofício de apoio deles.
  1. Defina um projeto claro. Não precisa ser uma pesquisa em si: pode ser revisão de currículo, desenvolvimento de metodologias, workshops em áreas específicas ou consultoria para problemas que seu programa enfrenta. O importante é que seja factível em 14 a 28 dias e tenha impacto concreto.
  1. Estruture a proposta em inglês usando o formulário da Fulbright Brasil. Descreva objetivos, atividades, resultados esperados, como isso impactará alunos e professores, e como isso pode levar a parcerias futuras.
  1. Submeta até a data-limite 

Se aprovado, você entra em contato com especialistas pré-selecionados, classifica-os por preferência, e a Fulbright Brasil faz o resto.

Internacionalização acadêmica ao alcance de todos

A internacionalização de um programa de pós-graduação não é privilégio de universidades em grandes centros urbanos com grandes orçamentos. É uma realidade ao alcance de todos os programas de pós-graduação no Brasil.

Os três coordenadores que compartilharam suas experiências com o PVCD, Professor William Teixeira, Professor Henrique Rizek Elias e Professora Maria Cristiane Martins de Souza, não começaram com vantagens estruturais. Eles tinham dedicação, clareza de objetivo e acesso a um programa que funcionou.

O PVCD funciona porque alinha os interesses de todos. A Fulbright encontra especialistas para projetos relevantes. Sua universidade ganha internacionalização sem custo paralelo. Você, como coordenador, ganha uma Missão de Trabalho nos EUA para consolidar parcerias. Os alunos saem com acesso a metodologias internacionais. E os especialistas americanos ganham experiência em contextos acadêmicos diferentes. O ganho é dos dois lados.

Se você é coordenador de um programa que se vê fora do circuito internacional, vale olhar para isso não como um sonho distante, mas como um projeto viável e aberto a candidaturas.


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