20 de maio | 2018

Depoimento sobre o MFA: Rita Toledo

Rita Toledo foi bolsista Fulbright do programa de mestrado para formação de roteiristas (MFA). Ele fez seu mestrado na American Film Institution, nos Estados Unidos com bolsa da Fulbright até 2017. Veja a entrevista que fizemos com ela sobre o programa:

Fulbright – O que motivou você a se inscrever no programa MFA?

Rita Toledo – Eu soube pela internet, demorei a tentar a bolsa pois estava trabalhando no Brasil, como roteirista e produtora. Sou sócia na produtora DAZA Filmes. O meu trabalho em cinema me deu vontade de aprender mais, estudar mais, passar um tempo focada em escrever, ver filmes, produzir filmes. Então entendi que um MFA seria um caminho interessante. O MFA é um mestrado profissional, ele tem um foco menos teórico, como costumam ser os mestrados no Brasil, e mais prático – ele prepara para o trabalho profissional de escrita para cinema e TV.

 

Fulbright – Para você, qual foi o aspecto mais mais interessante da experiência?

Rita Toledo – Morei dois anos em Los Angeles, centro da gigantesca indústria de cinema e TV norte-americana, estudando no AFI, considerada uma das melhores escolas de cinema do país. Então é um mergulho nessa indústria, e também na lógica de produção deles, que é uma lógica industrial. A forma como eles entendem o cinema e a TV é a forma da cultura deles. É uma experiência de mergulho da cultura americana, na forma como eles entendem o mundo, como contam histórias, como vêem a si mesmos e aos outros. Além disso, o AFI é uma instituição extremamente respeitada e querida, então semanalmente recebemos a visita de diretores, roteiristas, produtores, fotógrafos e outros profissionais, daqui e do mundo todo, quem vêm dar palestras, exibir filmes, conversar com os alunos. Ter acesso a estes profissionais super experientes e renomados é maravilhoso.

 

Fulbright – Como era sua rotina durante o mestrado em roteiro nos Estados Unidos?

Rita Toledo – Minha rotina durante esses dois anos foi: escrever, assistir aulas, ler muito, escrever mais ainda. O programa do AFI é “hands on”, aprendemos fazendo. E fazendo muito. Não tive um minuto de descanso. A carga horária é é extenuante, os prazos são curtos, as aulas exigem muita participação. Durante o primeiro ano, eu não pensava, só trabalhava. Aos poucos entendi que essa é a forma como eles acreditam que o aprendizado acontece: você tem ideias e desbloqueia a sua criatividade porque não tem tempo de pensar. Você trabalha com a intuição, joga as ideias no papel, perde o medo de ser lido e criticado. Não há tempo para dúvida, para a hesitação ou a crítica.

As aulas têm dinâmica de workshop: os alunos leem os materiais uns dos outros e dão “notes”, ou seja, fazem comentários que precisam apontar os problemas e soluções possíveis. É um ambiente extremamente colaborativo. O medo de ser criticado acaba logo, e vamos entendendo que o trabalho melhora quanto mais aprendemos a ouvir o outro e a identificar o que você acha que está comunicando, mas não está. Como eles dizem aqui, os primeiros “drafts” ou versões dos roteiros são sempre ruins. Quando mais rescrevemos, melhor fica. Escrever é rescrever. E nessa dinâmica, você adquire o “músculo” que o roteirista precisa ter: liberdade e agilidade pra gerar ideias novas e disciplina para a tarefa de escrever diariamente, transformando a ideia inicial em uma história com corpo, complexidade, personagens desenvolvidos.

 

Fulbright  – Como você acha que a experiência influenciou seu trabalho?

Rita – Aqui aprendi que escrevemos com a intuição, com o corpo, com as emoções. E que quando criamos precisamos seguir o caminho desgovernado da intuição e das emoções, nos conectar com nossas experiências e histórias pessoais. Aprendi que o melhor trabalho acontece quando nos expomos, quando escrevemos sobre o que nos move, nos dá medo, vergonha, o que nos apaixona. O trabalho da escrita é feito desse processo: intuitivo, criativo, mas em seguida, analítico, de revisão e reescrita. Aqui adquiri disciplina e paciência, a compreensão de que um roteiro bom demora e dá muito, mas muito trabalho. Aqui se respeita e valoriza muito o trabalho do escritor de cinema e TV, o que não acontece tanto no Brasil. Aprendi a valorizar mais ainda o processo que acontece previamente à produção do filme, o trabalho de criação, de fabulação e de muito suor. Também aprendi a ouvir críticas e a gostar de receber críticas, pois elas é que vão ajudar você a fazer o seu trabalho ficar melhor. Pessoas que pensam diferente de você te ajudam a perceber coisas que você não perceberia sozinho. Elogios são perigosos, porque não te levam a lugar nenhum, deixam você parado onde está no seu processo criativo.

E aqui escrevo ao lado não apenas de americanos, mas de pessoas do mundo todo, de culturas as mais variadas. As perspectivas sempre são diversas e aprendo algo novo a cada minuto. O cinema e a TV americana querem despertar no espectador uma emoção, uma conexão. E isso se dá através do desenvolvimento das personagens. O foco é no drama, e as histórias, nesta perspectiva, nascem dos problemas, desejos e medos das personagens. Muitas pessoas pensam que o foco do cinema americano é no “plot”, mas essa é uma meia-verdade. Quando ficamos grudados na frente da TV assistindo às boas séries americanas, um episódio após o outro, é porque queremos saber o que vai acontecer com aquela personagem que de repente virou uma pessoa pra nós. Ela é tão bem escrita, complexa, que passou a ser viva, ela é real, surpreendente, fascinante. Nos identificamos, queremos saber como ela vai reagir às coisas, como vai resolver seus problemas. Para além do gênero, é sempre uma conexão com o drama, com a emoção. Essa é uma ferramenta poderosa e que os americanos dominam como ninguém.

 

Fulbright – A oportunidade correspondeu suas expectativas?

Rita Toledo – Com certeza essa é uma oportunidade única e que superou em muito as minhas expectativas. É uma formação como não existe no Brasil, infelizmente. No Brasil, aprendemos trabalhando, dando a cara a tapa no mercado de trabalho. A oportunidade de passar dois anos focada em aprender e desenvolver meu trabalho é um privilégio maravilhoso.

 

Fulbright – Qual a recomendação que você daria para os futuros candidatos/bolsistas?

Rita Toledo – Preparem-se para trabalhar incansavelmente. É preciso também vir com a disponibilidade para se transformar, despir-se de ideias previamente concebidas, ampliar as perspectivas. É uma experiência total: vai transformar você profissionalmente e pessoalmente.

 

Fulbright – Para você, o que significa ser uma Fulbrighter?

É algo de que me orgulho muito. No Brasil não temos clara a ideia do que significa a Fulbright, a importância e o reconhecimento que ela tem nos EUA. Quando cheguei entendi que ela é uma das instituições mais importantes do país, que todos a conhecem e se orgulham. Pessoas que mal conhecia vinham me parabenizar. Ser uma Fulbrighter me faz sentir acolhida e bem vinda aqui.

 

 

 

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